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É um fato que vivemos em uma época do culto ao corpo. não sei dizer historicamente quando isso começou e quando isso virou uma questão de saúde mental, mas desde o final do século passado, a imagem, o corpo, a beleza são valores quase fundamentais que buscamos pra nossa vida.

A mentalidade até tem mudado, estamos percebendo o quanto isso afeta nossa autoestima de um jeito superficial, o quanto do que fazemos da nossa própria vida é em função da validação alheia.

Explicações mais profundas sobre esse fenômeno comportamental à parte, eu só consigo falar mesmo da minha própria experiência.

Eu era uma criança magra e gordofóbica. E quando eu tinha algum tipo de desentendimento com outra criança e ela era gorda, eu certamente usaria isso pra ofendê-la. Eu ia gritar pra ela ouvir: “gorda, baleia, saco de areia”. Não preciso dizer que eu condeno essa atitude hoje, né?

Um pouquinho depois disso, eu comecei a fazer aulas de vôlei e era bastante ativa. Adorava atividades ao ar livre, praia, esportes, meu sonho era ser ginasta nessa época.

Pois bem, a puberdade me pegou de jeito, me mostrou o que é se sentir desconfortável na própria pele. O que é se odiar, não querer ser como se é. E foi bem isso, eu menstruei, logo em seguida meu peito cresceu como um bolo cresce no forno naqueles vídeos acelerados, de repente eu tinha uma barriga e pernas mais grossas.

Veja bem, eu era magra, completamente dentro do padrão, mas aquela nova forma me incomodava mais do que o normal. Eu me apertava com ódio em cada gordurinha ou “banha”, eu me mordia quando tinha crises de raiva (às vezes não só pelo corpo, mas qualquer coisa que me deixasse com raiva). E por aí com 13 ou 14 anos começaram também as dietas.

Mas ainda assim, eu era ativa, o vôlei ainda fazia parte da minha vida e me dava prazer. Eu ia pro clube, jogava, nadava, passava o dia inteiro fora de casa mexendo o corpo e era uma delícia, porque nada daquilo era pensando no corpo e sim no prazer da atividade em si.

Com 15 eu comecei a fumar, ouvir rock, querer sair pra balada e aos poucos o esporte e as atividades de movimento foram ficando mais de lado. O desconforto na própria pele continuava e se antes eu tentava usar meu corpo como afirmação de valor, de que eu podia ser desejada (sim, com 13, 14 anos), agora eu fazia protesto. As roupas eram largas, eu era grunge e não patricinha, era calça cargo e não corsário e descobri um lado mais masculino em mim, mais desleixada com isso e querendo agredir o mundo.

No início da vida adulta eu fui recuperando o lado mais feminino, de novo de querer ser atraente, de querer me sentir bem no meu corpo. E aí eu descobri que existia uma fórmula mágica pra gente ficar magra e, portanto, feliz: remédios, anfetaminas, sibutraminas… Finalmente eu estava magra de novo, posso usar meu corpo de novo pra atrair, pra manipular, pra ser eu de verdade, pra ser sexy sem pagar mico. 

Depois de muita taquicardia, sono, insônia, dores estranhas, boca muito seca, falta de disposição, pirações da cabeça e gastando dinheiro nessas fórmulas mágicas, eu decidi que era hora de parar. Que aquilo não me fazia bem.

Com essa decisão, eu devo ter engordado uns 20kg em dois anos. Além do rebote do remédio que sempre engorda mesmo, eu também vivia um luto profundo e eu me permiti viver anestesiada de comida, bebida, festas e drogas por um tempo.

Nessa época, o GWS já falava dessas questões, já existia esse diálogo entre as amigas e a gente começou a levar isso pro blog. Entre 2011 e 2014 eu parei um pouco pra me ouvir, pra entender essa trajetória tão tumultuada e pra tentar me encaixar, me situar dentro de mim mesma.

O relacionamento tóxico que se arrastou por quase 7 anos acabou, o luto deu uma brecha, eu estava começando a trabalhar dentro da minha área, minhas relações de amizade estavam fortalecidas, eu tinha pessoas incríveis ao meu lado. As nossas questões eram levadas pro blog e a resposta das leitoras eram estimulantes, acolhedoras… as coisas começaram a fazer mais sentido. 

E a minha autoestima nesses 3, 4 anos melhorou muito. Eu passei a me entender mais, a me respeitar mais, a me valorizar mais pelas minhas conquistas, amigos, a pessoa que eu sou. Mas a minha relação com o corpo ainda era complicada.

Toda vez que eu tentava fazer algum exercício, entrava numa academia, aquilo além de ser uma tortura, era uma tortura merecida, afinal eu tava uma “gorda baleia, saco de areia”. Sem contar que se eu fizesse uma caminhada, eu podia andar uma hora e meia que parecia que aquilo não adiantava, que eu só tava perdendo tempo, que eu tinha era que fazer “um exercício de verdade”, treino, maromba, crossfit… Na academia a sensação era de vergonha com culpa, era de raiva de novo, de “não dá pra ficar assim”. 

Ou seja, eu consegui enxergar valor em mim, me empoderar de outras coisas, mas eu ainda me colocava como não merecedora por causa do corpo que eu tinha/tenho.

Eu sempre me distanciava quando o assunto era paquera, eu sempre me diminuía, sempre achei que ninguém nunca tava me dando mole, passei um bom tempo sem ir a praia, sem usar biquíni, sem mostrar o braço roliço, sem “pegar ninguém”, sempre colocando uma almofada no colo se eu sentasse em um sofá, sempre trocando de roupa escondida das amigas, sempre complexada.

E durante esses anos, mesmo sentindo isso eu também passava por um processo de aceitação, desconstrução, de entender a importância de não colocar a imagem padrão como meu principal valor. Até que as coisas foram melhorando aos poucos. Eu emagreci de novo naturalmente, depois eu engordei e eu vivo nessa sanfona. Ainda tem uma forma do meu corpo que eu prefiro ter, mas a dor que eu sentia já não é a mesma.

Eu passei a entender e tentar melhorar minha relação com alimentação e passei a resgatar aquele sentimento da infância em que se exercitar era prazeroso e sem nenhum objetivo estético. Hoje eu tento me exercitar com frequência, muitas vezes não consigo, mas é tão diferente! Não é que seja gostoso cansar e sentir dor, fazer repetições entediantes, mas encontro sim algum prazer ali.

E recentemente me encontrei legal na yoga. Ainda com resquícios do diálogo interno depreciativo por não conseguir atingir certas posturas, mas sinto prazer real na prática quando foco e afasto esses pensamentos.

Mas o que mudou mesmo é o propósito daquilo. Não é mais odiando as banhas e querendo forçar o limite até elas serem destruídas. É simplesmente mexer o corpo, superar alguns limites, sentir o coração acelerado, suar… tudo isso ganhou uma nova cara pra mim. É experimentar o meu corpo. É se conhecer, se sentir, ser você dentro de você.

Como eu disse, não é fácil, não é prazeroso no início, não consigo fazer todos os dias, já chorei em aula me sentindo fraca e incapaz de aguentar tal exercício, mas é libertador também. 

Queria deixar claro que eu sei que nunca fui gorda. Pessoas gordas passam por outro tipo de experiências que eu jamais vivi. Mas essa é a minha experiência com a pressão estética que todas nós sofremos. Todas! E eu sei tbm que o conceito de feminino e masculino são construções sociais, mas essas construções existem e ilustram o que eu estava querendo dizer.

Se tem uma moral aqui ela é a mais clichê possível: se ame. Sim, se ame, exercite isso, se valorize pela sua história, se respeite, não aceite menos do que você merece, não se diminua por pressões externas. Tente se conhecer, fazer as pazes com você, se perdoar. Não é fácil, não é definitivo e não tem fórmula. A vida toda é esse processo de ser sua, às vezes a gente é mais, às vezes menos.

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