Eu tive uma relação muito conturbada com a minha mãe. A gente passou boa parte da vida se agredindo, se culpando e se magoando, mas não foi sempre assim.

Ela era uma menina muito livre, vivia em um lugar pobre, chamava atenção pela beleza e a aposta era que ela seria uma artista: tão bonita, tão extrovertida…

Seus sonhos eram grandes, mas sua realidade (e falta de alguma coisa que eu não saberia identificar – oportunidade? amor próprio? determinação?) sempre podaram a imensidão que cabia dentro dela.

perdoar minha mãe Como toda pessoa sensível demais, era dada às aventuras mundanas e aos prazeres da vida. Me teve com 18 anos, depois de já ter engravidado outras vezes (eu sou filha única, no entanto). Era uma menina, animada, que às vezes tinha muito senso de responsabilidade, mas às vezes só queria viver sua juventude.

Desde que eu me lembro as drogas estavam presente na vida dela. E com certeza esse foi o seu maior obstáculo na vida. E o que levou a nossa relação ao limite também.

Mas hoje seria o aniversário dela. 56 anos. Ela adorava festejar, comemorar e eu queria pensar e buscar dentro de mim todas as coisas boas que ela fez por mim ou que eu admirava nela.

Porque antes até dela ir embora eu já queria mudar nossa convivência. Então, agora que ela não tá aqui faz menos sentido ainda remoer tanto as coisas ruins.

Ela era extremamente carinhosa e eu tinha uma paixão cega por ela quando era pequenininha. Todas as crianças amavam ela, queriam estar perto dela e aquilo me consumia de ciúmes… Mas ela tinha carinho pra dar pra todo mundo.

Ela me ensinou e ser generosa, a ajudar os outros. Lembro quando teve o Tsunami e montaram um posto de recolher doações aqui do lado de casa. Ela me levou pra gente ficar lá ajudando a receber, separar e encaixotar tudo… foi meu primeiro trabalho voluntário e eu aprendi muito com aquilo.

Ela falava muito de caridade e era sempre a pessoa que pensava em agitar o “lanche das crianças” em qualquer oportunidade. Ela era louca por criança.

É difícil me lembrar da parte boa da adolescência quando penso nela, porque foi realmente difícil entre nós, ela era muito instável, mas nas horas melhores, ela me apoiou em ser uma Spice Girl (!) e em ter um relacionamento com outra menina.

Ou quando eu quis fazer faculdade de moda, ela mexeu todos os pauzinhos e conseguiu uma bolsa de 60% pra mim. Ela acreditava que a gente tinha que ir atrás do nosso sonho, da nossa independência e ser feliz. Ela só esqueceu de fazer isso por ela mesma.

O melhor amigo da minha mãe era um homem gay. Nos anos 80 era bem diferente, um verdadeiro tabu. Mas ela lutava pelo direito dele de existir e me ensinou sobre preconceito. Ela me defendia como uma leoa e isso foi bom e foi ruim porque quando eu era criança e outra criança brigava comigo, ela ia lá brigar com a criança pra me defender (!), mas quando um amigo mais velho dela insinuou dar em cima da filha dela adolescente, ela foi pra cima dele tão forte que o homem teve que mudar de cidade.perdoar minha mãe

Aliás, ela me ensinou educação sexual desde novinha. Uma coisa que eu não vi acontecer com outras muitas amigas da minha idade.

Eu tenho muito nítido na memória o quanto ela se esforçava e sentia prazer em me dar coisas que eu queria muito, o quanto ela era destemida e me levava pra todos os cantos com ela.

Lembro das viagens, da gente indo de carona pra praia, de lugares que provavelmente uma criança não deveria estar… Lembro dos namorados legais que ela teve, dos inúmeros apelidos que ela me dava e me chamava, de como se emocionava com a lua cheia. Da comida e do tempero que era só dela. Às vezes eu lembro do cheiro dela.

Ironicamente, o que eu mais lembro de bom dela era o cuidado e o carinho que ela tinha comigo. É irônico porque as agressões foram muitas também.

Enfim, todo mundo tem seus momentos, seu lado bom e ruim. Ainda mais com vício norteando toda sua vida. Mas eu queria colocar em palavras a sensação boa de ter sido filha da Nayra, porque eu já falei muito sobre a parte ruim. Todo mundo sabe que perder ela foi a coisa mais difícil que eu já passei na vida. É uma saudade estranha, eterna, é um papel social que acabou pra mim: o de filha.

É um enorme clichê mas eu sei que apesar de todas as coisas, ela era a única pessoa que daria a vida por mim. E isso é imenso e carregado de significados, não só o literal, de morrer por outra pessoa. Não acho que isso seja inerente a todas às mães, não pretendo romantizar nada. Mas eu sei que com ela era assim.

Espero que hoje seja um dia de festa e alegria em alguma dimensão onde ela possa comemorar e se divertir.

— ♥ —

Por Marie Victorino

 

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