Essa última semana não foi nada fácil pra mim e diante de tantos pensamentos conturbados acabei pensando muito sobre relações de poder e em especial sobre poder feminino.

Como eu disse, tive uma semana esquisitíssima, não conseguia me sentir disposta para colocar em prática nada que eu tinha planejado. Estava no deadline e não conseguia trabalhar, também não conseguia estudar, nem responder os e-mails, muito menos separar os documentos para o imposto de renda.

Então eu tentei relaxar. Assistir uma série, talvez? Terminar o livro que estou lendo? Dormir de tarde?Faxinar? Todas as opções não me pareciam boas opções porque elas só me lembravam do que eu deveria estar fazendo e não estava.

Cozinhar era a única coisa que eu conseguia fazer sem me sentir mal afinal, eu tinha que me alimentar. Mesmo assim… Se eu demorasse muito preparando a comida, já me culpava por não ter pensando em algo mais prático, rápido para fazer.

 

poder feminino

 

E você pode estar lendo isso e pensando: “é ansiedade”. E sim, é ansiedade. Sou diagnosticada com TAG (transtorno de ansiedade generalizada) o que significa que o nível de ansiedade é desproporcional aos acontecimentos reais e além disso, estamos vivendo uma pandemia em um governo desgovernado, o que vamos combinar? Não deixa ninguém mais tranquilo.

Mas a ansiedade não é exatamente o foco desse texto. E sim o que talvez cause essa estranha sensação de estar sempre perdendo tempo, que eu poderia fazer mais, ser mais, ser mais prática, rápida, melhor, estar sempre em movimento, em busca de… poder.

Colocamos todos os dias na nossa lista de afazeres tarefas que fazemos praticamente no automático, todos os dias, como se fossemos uma máquina, que funcionasse sempre da mesma forma todas as vezes que ligamos na tomada. E eu sei, que você mulher, assim como eu, tem dias que se sente inspirada para produzir, dias que prefere refletir, dias que quer explorar, dias que quer se recolher…

Isso porque somos cíclicas como a lua. Mas somos obrigadas a funcionar como o sol, energia masculina, sempre em movimento e em ação, apenas reproduzindo todos os dias o mesmo movimento. Se esse papo tá místico demais pra você, ok, vamos falar cientificamente: Os hormônios femininos por exemplo, sofrem variações constantes durante o dia. Alguns fatores que alteram a quantidade de hormônios femininos por exemplo são a hora do dia, o ciclo menstrual, menopausa, medicamentos, estresse, fatores emocionais, sem falar na gravidez. Já nos homens, os hormônios seguem praticamente da mesma forma durante toda a fase adulta.

É inquestionável que vivemos em uma sociedade construída pelos homens. Tudo que nos é “vendido” sobre ser produtiva, vencedora, ser ativa é masculino porque a construção social que vivemos é masculina. Nós nos desconectamos com a forma que realmente pensamos, produzimos e funcionamos muito antes das nossas bisavós nascerem.

No fundo, sentimos que não queremos produzir assim, que não é essa a forma que gostaríamos de nos expressar, de viver, de trabalhar, não é como gostaríamos de ver o mundo funcionar, mas esse é o único jeito que a gente conhece. O jeito dos homens que passou a ser somente o jeito certo.

Sentimos um incômodo que não passa, independe de estarmos cumprindo ou não, nossa lista de tarefas, se a semana foi produtiva ou não, seguimos enraizando mais ainda o jeito masculino de fazer as coisas, reproduzindo algo que não nos pertence.

Nossa energia feminina está em desequilíbrio há tanto tempo que é preciso reconhecer que nós mesmas não a conhecemos, não a vivemos. Tudo que temos é uma coisinha dentro de nós, uma semente que podemos chamar de intuição que tenta nos avisar diversas vezes que como todo o sistema funciona, não é a forma que queremos viver.

Mas isso não tem a ver com “pegar”o poder para nós, não é uma disputa por ele. Nós, mulheres, precisamos compreender que a questão não é sobre quem está no poder e sim, a importância de mudar a natureza do poder que se estabeleceu na nossa sociedade.

Como Starhawk, uma escritora americana disse no seu livro “Truth or Dare”. Existe o “poder sobre” que está relacionado com dominação e controle e o “poder de dentro” que despertam nossas habilidades e potencialidades profundas. O “poder sobre” trabalha como uma pirâmide, enquanto o poder de dentro, como um grande círculo, sempre disposto a expandir.

Sem perceber, justamente por termos sido nascidas e criadas dentro desse sistema de “poder sobre”, assim como nossas mães, nossas avós, nossas bisavós (e a lista poderia seguir mais longe) nós o reproduzimos e chamamos isso de independência, autonomia, profissionalismo, sucesso…

Competimos mesmo fazendo textão de empoderamento, vemos as outras como competidoras mesmo quando sabemos que podemos aprender e ensinar umas com as outras, falamos sobre autoestima, duvidando da nossa capacidade e nos odiando em frente ao espelho. Nos sentimos constantemente frustradas, porque estabelecemos um ritmo para nós que não é nosso.

Seguimos apoiando uma fórmula que não funciona pra gente e usando apenas a liberdade que nos foi dada, que nos foi permitida, porque verdade seja dita? Dentro da sociedade que nascemos e conhecemos, não fomos nós que conquistamos. Em alguns momentos da história, foi interessante pro sistema que ganhássemos pequenas liberdades. Até quando? Pra quais de nós? A que custo?

Ainda temos muito o que entender sobre nós mesmas. Inclusive a forma que produzimos, criamos, realizamos, existimos e se o que fazemos com “essa tal liberdade” realmente nos liberta ou estamos somente fortalecendo algo que no fundo, no fundo (nem tão no fundo assim) nos limita.

Afinal, nós fomos e somos reprimidas, estereotipadas, inferiorizadas e desacreditadas. A história da mulher na nossa sociedade é uma história de renuncias e tudo isso está enraizado no nosso subconsciente, na nossa criação e na forma que a sociedade funciona.

É nosso papel buscar o equilíbrio dessas forças. O primeiro passo é conhecer e reconhecer a nossa energia. Chegou o momento, mulheres, de recuperamos a consciência das nossas potencialidades e conhecer de verdade, nosso poder, o verdadeiro poder feminino.

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