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Desde muito novas, por mais liberal e consciente que tiver sido nossa educação, nós mulheres sabemos que a sociedade espera que nos coloquemos nos “nossos lugares”. A partir do momento em que uma mulher resolve passear pelo mundo sozinha, sem maiores satisfações, ela acaba declarando de maneira silenciosa — e nem sempre intencional — que não é dependente, submissa, não tem medo de ficar sozinha e, claro, que nosso lugar é onde a gente quiser. Mesmo.

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Imagem: Pinterest 

Começar a mochilar sozinha não foi um objetivo de vida ou uma espécie de declaração de autossuficiência, foi uma solução prática: eu queria ir, ninguém queria ir comigo, mas eu realmente queria ir e fui. Nessas viagens eu cresci muito como pessoa e aprendi uma coisa sobre as pessoas: para algumas é quase absurdo você ser mulher e viajar – ou estar – sozinha. Em Roma, dois garçons, em restaurantes diferentes, se ofereceram para jantar comigo e eu não comer sozinha, senti quase como se fosse inadequado uma mulher estar jantando sozinha na Itália.

A gente vai ouvir “mas você vai sozinha?”, “você não tem medo?”, “mas e se acontecer alguma coisa?” e a que mais me irritava e que se repetiria por mais vezes que eu queria acreditar: “mas seu namorado deixou?”. Claro que essas perguntas virão embebidas de preocupação e cuidado (a última não, essa é absurda mesmo), mas também de um certo julgamento, algumas vezes senti até um tom de pena por eu estar contando que passaria dois, quatro meses sozinha.

Além de perceber a aparente falta de confiança das pessoas no seu bom senso, se aventurar por esse mundo só com a sua companhia tem um lado ruim: a solidão inevitável em certas situações, as fotos horríveis porque ninguém se esforça, não poder beber muito para não ficar vulnerável em um mundo em que o machismo e a cultura do estupro imperam, por exemplo. Mas em troca você ganha a liberdade. De ser e fazer o que quiser, de investir suas horas no que parecer mais legal naquele momento, de olhar pra dentro, de se descobrir, de se curar e de se permitir seguir em frente. Viajar sozinha é uma ótima oportunidade para olhar para dentro e identificar o que precisa do remendo de novas cores, novas comidas e experiências.

É importante percebermos que solidão vai bater, sim, em alguns momentos quando se viaja sozinha, mas não porque somos mulheres, e sim porque somos humanas. Os desafios vão aparecendo e vamos superar todos eles e voltar pra casa mais fortes e nos sentindo invencíveis porque nos desafiamos, desafiamos o que pensavam sobre nós e nos tiramos do lugar submisso e dependente em que a sociedade insiste em nos colocar, mas que não nos pertence. Mais do que tudo, essas experiências me mostraram outra vez que mulheres desafiando o que esperam delas causa um desconforto muito grande. Mulher sozinha e feliz incomoda.

Então vão, vamos incomodar. A gente já segura tanta coisa no dia a dia: tanto machismo enraizado, tanta gente achando que não somos capazes, que somos frágeis demais para lidarmos com os imprevistos da vida, que somos um pedaço de carne sem vontade própria, que vamos assustar os homens se formos independentes demais… Vão, vamos. Um dia seremos tantas na estrada que ninguém vai poder perguntar em tom de pena se vamos sozinhas. Porque todo mundo vai saber que vamos todas juntas.

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